Entrevista com Stanislav Grof sobre Psicologia Transpessoal – Parte I

Abaixo, apresentamos uma entrevista concedida por Stanislav Grof, criador da Respiração Holotrópica e um dos principais representantes da Psicologia Transpessoal, a Iker Puente, editor assistente do Journal of Transpersonal Research e psicólogo transpessoal em Barcelona.

Trata-se de um diálogo que esclarece e exemplifica uma série de aspectos da Psicologia Transpessoal e o caminho percorrido por Grof em sua carreira. Confira:

Stanislav Grof e Iker Puente

Iker Puente: Stan, poderias nos explicar brevemente o que é a Psicologia Transpessoal e qual foi a tua contribuição para a psicologia?

Stalisnav Grof: Bom, a Psicologia Transpessoal nasceu no final dos anos sessenta nos Estados Unidos. Abraham Maslow chamou esta corrente de Quarta Força em Psicologia - sendo as três primeiras o Behaviorismo, a Psicanálise Freudiana e o Humanismo. Na primeira metade do século XX, a psicologia e a psiquiatria europeia e americana foram dominadas exclusivamente pelo behaviorismo e pela psicanálise.

A psicologia humanista, fundada por Maslow e Anthony Sutich, surgiu como uma reação às limitações dessas duas primeiras forças. O foco de interesse dos humanistas foram os mais altos valores humanos e a nossa tendência a alcançá-los, levando o homem ao que Maslow denominou de auto-atualização e autorrealização. Esta escola também forneceu um quadro amplo para o desenvolvimento de uma nova forma de psicoterapia, chamadas de psicoterapias experienciais, como a terapia Gestalt.

Mas, em pouco tempo, perceberam que faltava algo na formulação dessa nova psicologia. Foi então que Maslow me convidou para participar de uma discussão com um pequeno grupo, em Palo Alto, com ele, Anthony Sutich, James Fadiman, Viktor Frankl e Miles Vich. Nessas reuniões, discutimos a missão e os princípios fundamentais desta nova corrente, que batizamos de Psicologia Transpessoal (PT). Maslow e Sutich tomaram a denominação “transpessoal” da minha classificação das experiências psicodélicas: biográficas, perinatais e transpessoais. Então, a PT acrescentou uma nova e importante dimensão: o reconhecimento da espiritualidade como um aspecto legítimo e importante da psique humana. Essa visão difere radicalmente da psicologia acadêmica, que rejeita e reduz qualquer forma de espiritualidade a mera superstição. Outro aspecto importante desta tendência é que ela estuda todo o espectro da experiência humana, incluindo os estados não-ordinários de consciência (ENOC) e várias formas de experiências místicas.

A Psicologia Transpessoal foi profundamente influenciada pelas experiências e observações dos estados alterados de consciência, como ocorre durante as práticas xamânicas, os rituais aborígenes, os antigos mistérios de morte e renascimento, as sessões psicodélicas e várias formas da prática espiritual (incluindo diferentes escolas de yoga, budismo, taoismo, sufismo, misticismo cristão etc.). E é aí que o meu próprio trabalho está enraizado.

Então, quando a Psicologia Transpessoal tomou sua forma inicial, ficamos muito satisfeitos com o resultado. Sentimos que era culturalmente sensível e respeitosa com os rituais mais diversos e com a vida espiritual da humanidade, sem converter em esquizofrênicos ou psicóticos os fundadores das grandes religiões, os xamãs ou os místicos, algo comum na psiquiatria. Além disso, incorporava as desafiadoras observações da consciência, a terapia psicodélica, a antropologia e os estudos sobre meditação.

Mas nos deparamos com um problema grave. Esta nova psicologia era fundamentalmente incompatível com a visão de mundo feita pela ciência ocidental e seu materialismo monista. Era muito vulnerável às acusações de ser não científica, pouco profissional e irracional. Por algum tempo, não soubemos enfrentar este desafio.

Então apareceu uma nova pessoa que me influenciou profundamente: Fritjof Capra. Lendo seu primeiro livro, O Tao da Física, percebi que o problema era tentar conciliar a Psicologia Transpessoal com o pensamento do século XVII. A própria física, como mostrava Capra, havia transcendido todos os aspectos do paradigma newtoniano-cartesiano que dominou a ciência nos últimos três séculos. Porém, as demais disciplinas - biologia, medicina, psiquiatria e psicologia – ainda estavam presas no velho modo de compreender a realidade. Percebemos que o que tínhamos de fazer era conectar a Psicologia Transpessoal ao novo paradigma científico que emergia.

IP: Podes explicar brevemente o treinamento que recebeste durante a juventude?

S.G:. Eu nasci e estudei em Praga, na Tchecoslováquia. Cursei medicina na Escola de Medicina Charles University. Também em Praga, fiz especialização em psiquiatria e formação em psicanálise freudiana, que incluía sete anos de análise pessoal.

IP: Te formaste como um psicanalista tradicional?

S.G: Sim. Na verdade, me matriculei na escola de medicina com o objetivo explícito de me tornar um psicanalista. Naquela época, estava muito impressionado com o trabalho de Freud.

IP: O que te levou a desenvolver o interesse pela Psicologia Transpessoal? Quando e como começaste a trabalhar com esta abordagem?

SG: Chegou um momento em que vivi um conflito com a psicanálise, especialmente na relação entre a teoria e a prática psicanalítica. À medida que lia a literatura psicanalítica, ficava cada vez mais impressionado com sua teoria e com a ampla gama de áreas que ela havia explorado. Só que aos poucos me dei conta de que esta amplitude não se refletia na prática. Os pacientes precisam cumprir critérios muito específicos para serem considerados bons candidatos para a terapia freudiana e, quando são aceitos, acabam por comprometer muito tempo. Naquela época, a psicanálise tradicional compreendia de três a cinco sessões semanais. Implicava uma enorme quantidade de tempo, dinheiro e energia. Percebi que, mesmo depois de vários anos, os resultados não eram exatamente impressionantes. Comecei a me sentir desiludido com a formação que estava recebendo.

Então, ocorreu algo muito importante na minha vida e que condicionou a minha trajetória profissional. Estava trabalhando no Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina, em Praga, numa época em que a psicofarmacologia dava seus primeiros passos e, com o surgimento dos tranquilizantes, tinha seus primeiros êxitos. Um dia recebemos da empresa farmacêutica suíça Sandoz uma caixa cheia de ampolas e uma carta descrevendo a substância, sua química, farmacologia e história. Era o LSD-25, uma droga muito interessante descoberta por Albert Hoffman, que se intoxicou acidentalmente durante uma de suas pesquisas.

A carta sugeria que esta substância, administrada em doses minúsculas, poderia induzir a uma "psicose experimental", um estado muito similar ao das psicoses reais. Isso significava que a investigação clínica e laboratorial do LSD poderia fornecer informações e pistas para o enigma da psicose, especialmente da esquizofrenia. A empresa perguntava se poderíamos trabalhar com essa substância e dar respostas sobre os possíveis usos legítimos do LSD na psiquiatria.

A carta de Sandoz também sugeria outra possibilidade fascinante: que o LSD poderia ser utilizado na formação de psiquiatras, psicólogos, enfermeiros e estudantes de medicina e psicologia, pois poderia oferecer aos profissionais de saúde mental a possibilidade de passar algumas horas imersos no mundo de seus pacientes. Depois dessa experiência, talvez fossem capazes de compreender melhor seus pacientes, comunicar-se com eles de forma mais eficaz e, quem sabe, alcançar melhores resultados terapêuticos. Naturalmente, eu estava muito animado com essa possibilidade e não perderia a oportunidade por nada no mundo. Fui um dos primeiros a me apresentar como voluntário para essa investigação.

IP: Poderias explicar como foi tua primeira experiência com LSD?

S.G: Quando me apresentei como voluntário, aceitei ser exposto, durante o experimento, a uma intensa luz estroboscópica (equipamento digital que emite luz pulsada), já que o pesquisador-chefe estava muito interessado na eletroencefalografia e na condução das ondas cerebrais. A primeira parte da minha experiência com LSD foi dominada por belos fractais, visões de arabescos e imagens caleidoscópicas, padrões que me lembravam os vitrais das catedrais góticas. Depois, a experiência se abriu para minha história individual; era algo parecido com uma análise, mas muito mais profundo. Identifiquei conexões que não havia descoberto em minhas autoexplorações anteriores.

Mas a parte mais importante da experiência ocorreu entre a segunda e a terceira hora. O pesquisador assistente me disse que era o momento de analisar a condução das ondas cerebrais. Então eu deitei e ele colocou os eletrodos, trouxe a luz estroboscópica, colocou sobre minha cabeça e, quando as luzes foram acesas, senti uma incrível explosão de luz, que me lembrou a explosão da bomba atômica em Hiroshima. Nesse momento, minha consciência foi catapultada para fora do meu corpo: perdi a conexão com a sala de experiência, com o assistente, com a clínica, com Praga e com o planeta. Senti que minha consciência não tinha absolutamente nenhuma fronteira. Me converti em “Tudo o que é”, na totalidade da existência. Minha experiência se centrou no universo astronômico; aconteciam coisas para as quais eu sequer tinha um nome. Mais tarde, quando li sobre o Big Bang, os buracos negros e etc., me dei conta de que se tratava dessa categoria de fenômenos, uma incrível demonstração de visões cósmicas.

Enquanto isso, o assistente seguia o protocolo e mudava a intensidade da luz. Quando a luz foi desligada, minha consciência começou a retornar: me reconectei ao planeta, à sala e, finalmente, ao meu corpo. Por um momento, não consegui alinhar minha consciência ao meu corpo. Ficou absolutamente claro para mim que tudo o que haviam me ensinado na universidade – de que a consciência é um produto da matéria, dos processos neurofisiológicos do cérebro – não era verdade. A consciência era algo muito maior; era pelo menos igual à matéria, mas possivelmente era algo muito superior. Eu podia imaginar que a consciência é capaz de criar a realidade por uma complexa orquestração de experiências, mas me parecia absurdo pensar que a matéria pudesse criar a consciência.

Finalmente, a viagem chegava ao fim e eu estava muito impressionado. Percebi que continuava fascinado pela psiquiatria e senti que a coisa mais interessante que um psiquiatra poderia fazer era estudar os estados incomuns de consciência, algo como aquilo que eu havia acabado de experimentar.

Essa experiência aconteceu em 1956 e nos últimos 50 anos foram poucas as minhas vivências profissionais fora deste subgrupo dos estados incomuns de consciência - que comecei a chamar de “holotópico”. Essa palavra significa "orientado em direção ao todo" ou "movendo-se em direção à totalidade". Estes são os estados que os xamãs induzem em seus pacientes e que eles mesmos experimentam quando curam alguém, são as experiências dos iniciados nos ritos de passagem das culturas indígenas ou dos antigos mistérios de morte e renascimento, as experiências dos yoguis, dos budistas e dos cristãos. São vivências que eu acredito que tenham um grande potencial curador, heurístico, transformador e até evolutivo. E desde então, o estudo desses estados se tornou minha profissão, vocação, paixão e dedicação.

Minha contribuição para a Psicologia Transpessoal vem dessas cinco décadas de exploração sistemática do potencial terapêutico, transformador e evolutivo dos estados alterados de consciência. Dediquei aproximadamente metade deste tempo à realização de psicoterapia com substâncias psicodélicas, primeiro na Tchecoslováquia, no Instituto de Pesquisa Psiquiátrica de Praga, e em seguida nos Estados Unidos, no Centro de Pesquisa Psiquiátrica de Maryland, em Baltimore, onde participei do último programa de pesquisa psicodélica do país.

Em 1975 comecei a trabalhar com a Respiração Holotrópica, um poderoso método de terapia e autoexploração que desenvolvi no Instituto Esalen, juntamente com minha esposa, Christina. Ao longo destes anos, também apoiei muitas pessoas que atravessavam crises psicoespirituais ou "emergências espirituais", como eu e Christina começamos a chamar. O denominador comum destas situações é que todas envolvem estados incomuns de consciência ou, mais especificamente, uma subcategoria que denominamos holotrópico.

Na terapia psicodélica, esses estados são induzidos pela administração de substâncias ou plantas psicodélicas. Na Respiração Holotrópica, a consciência é alterada por uma combinação de respiração rápida, música evocativa e trabalho corporal. Em emergências espirituais, estados holotrópicos ocorrem espontaneamente, em meio à vida cotidiana, e, geralmente, a causa é desconhecida.

Tenho me envolvido em diferentes disciplinas relacionadas aos estados incomuns de consciência. Tenho participado de cerimônias sagradas de culturas indígenas de diferentes partes do mundo, tive contato com os xamãs norte-americanos, mexicanos e sul-americanos, e também troquei informações com muitos antropólogos. Tive amplo contato com representantes de várias disciplinas espirituais, como o budismo Vipassana, Zen e Vajrayana, o Siddha Yoga, o Tantra e a Ordem Beneditina Cristã.

Depois de anos estudando várias formas de estados ampliados de consciência, cheguei à conclusão de que as experiências e observações mostram uma necessidade urgente de revisar completamente o pensamento predominante na psicologia e na psiquiatria. Uma revisão que, por sua amplitude e profundidade, poderia ser comparada ao que aconteceu com a física nas três primeiras décadas do século XX, quando houve a mudança da física newtoniana para as teorias da relatividade e, em seguida, para a física quântica. Descrevi essas implicações em vários de meus livros, incluindo Psicologia Transpessoal: nascimento, morte e transcendência em psicoterapia e Psicologia do Futuro.

IP: Que espaço ocuparam os psicodélicos no desenvolvimento da psicologia transpessoal?

SG: Para mim, o campo transpessoal se abriu como resultado da pesquisa psicodélica que realizei. Comecei a trabalhar com LSD em 1956, pouco depois de ter minha primeira experiência com essa substância. Foi com um grupo de pesquisadores que tinha acesso a uma série de psicodélicos. Tínhamos à nossa disposição psilocibina, psilocina, LSD, mescalina, entre outros. Durante dois anos, fizemos pesquisas no modelo das "psicoses experimentais". Tínhamos um grupo de cerca de 40 pessoas, formado por psiquiatras, psicólogos, biólogos e etc., incluindo nós mesmos, que vinha ao Instituto para um dia completo de investigações - e para as quais tomava uma dessas substâncias. Realizávamos uma série de testes e exames: sangue (a cada hora), urina, testes psicológicos, eletrofisiológicos... A ideia central era descobrir se cada uma dessas substâncias produzia efeitos específicos ou se em conjunto levavam a estados similares. Para comparação, em um dia os participantes recebiam um placebo e no outro, a substância.

Depois, trouxemos ao Instituto pessoas do Hospital Psiquiátrico com diagnóstico de psicose, com as quais foram feitos os mesmos testes. Dividíamos os pacientes por idade, sexo, QI e outros parâmetros de controle, e o objetivo era entender se os resultados dos testes com substâncias psicodélicas fechava com os resultados encontrados em pessoas psicóticas. Basicamente, este era o objetivo do modelo da psicose experimental. A ideia subjacente era que essas substâncias produzissem “psicoses tóxicas” e que as experiências fossem desencadeadas artificialmente pela interação entre a droga e o cérebro.

Então comecei a identificar um fenômeno que me fez mudar de ideia. Observei que a experiência psicodélica mostrava uma grande variabilidade intraindividual: se você der a mesma substância e dose para um grupo de pessoas em uma mesma configuração, cada uma terá experiências completamente diferentes. De igual maneira, quando a mesma pessoa repete a sessão psicodélica com a mesma substância, as experiências também são muito diferentes. Há uma enorme variabilidade. Foi a partir dessas observações que eu soube que não estávamos fazendo farmacologia, já que nela espera-se que uma substância produza efeitos iguais conforme as doses empregadas.

Além de serem diferentes umas das outras, as sessões consecutivas de uma mesma pessoa pareciam seguir uma espécie de progressão. Foi quando eu entendi que o que tínhamos em mãos era um catalisador, uma substância que de alguma forma aumentava o nível energético da psique de modo que os processos mais profundos se mostrassem disponíveis. Eu comecei a vê-las com o mesmo significado que o microscópio tem para a biologia ou o telescópio para a astronomia. Com elas, temos a possibilidade de estudar algumas áreas que, de outra maneira, não seria possível.

Pensei que o LSD poderia ser uma ferramenta para aprofundar, intensificar e acelerar o processo psicoterapêutico. Decidi levar estas substâncias ao hospital psiquiátrico para trabalhar com um grupo de pacientes que não conseguia melhorar com nenhum tratamento. Começamos a fazer psicanálise assistida por LSD e psilocibina. Nesta época, já havia concluído a formação médica e estava familiarizado com a psicanálise e sua estrutura conceitual. Fazíamos séries de sessões com doses médias e uma perspectiva psicanalítica.

Inicialmente, as sessões seguiam um formato psicanalítico: o paciente deitava no sofá e eu sentava próximo a ele. Aos poucos, essa configuração foi se mostrando cada vez mais inadequada. Comecei então a sentar de frente para o paciente, que mantinha os olhos abertos durante a maior parte do tempo, de modo que pude observar a forma como ele me via ao longo da sessão; eu poderia ser transformado em jaguar, em Hitler, em juiz supremo, anjo ou o que quer que seja. E as pessoas também viam de formas diferentes a sala de terapia: poderia ser uma sala de julgamento, uma praia deserta ou um corredor da morte.

Como psicanalista, eu estava fascinado. Me perguntava por que era visto de determinadas maneiras e o que haveria por trás daquilo. Percebi que o material vindo do inconsciente era responsável por ditar as transformações ilusórias da percepção. Na medida que avançávamos, sessão após sessão, era como se novas camadas fossem abertas, algo que um paciente chamou de “descascar a cebola do inconsciente”, o que dá um sentido muito preciso de como as camadas do inconsciente estão interconectadas.

Desta observações surgiu o conceito dos sistemas COEX, de como as coisas estão interligadas no inconsciente e associados aos sintomas. Depois, me dei conta de que este não era o contexto psicoterapêutico mais eficaz. Aos poucos, comecei a pedir aos pacientes que mantivessem os olhos fechados e o processo internalizado durante todo o tempo, basicamente o mesmo que fazemos agora na Respiração Holotrópica (RH).

Em 1964, participei em Londres de um congresso de psiquiatria social, onde havia um simpósio sobre LSD. Compareceram também vários pesquisadores norte-americanos que me convidaram para a Primeira Conferência Mundial sobre LSD, em Long Island, em 1965. Essa foi minha primeira viagem para os EUA. Eu já tinha alguns amigos no país, então pude permanecer por dois meses e dar algumas palestras em diferentes universidades. Uma dessas conversas ocorreu na Universidade de Yale, onde o Decano da Escola de Medicina se mostrou muito entusiasmado com meu trabalho e me ofereceu uma bolsa de estudos. Ele fazia parte do comitê de fundos para a psiquiatria em New Haven. Recebi a bolsa e voltei para os Estados Unidos em 1967. O Decano já havia contatado Joel Elkes, que era chefe da Clínica Psiquiátrica da Univerdade John Hopkins e estava muito interessado nos psicodélicos. Ele propôs que iniciássemos um projeto de pesquisa com psicodélicos na John Hopkins.

Porém, uma semana antes da minha chegada a Baltimore, havia sido publicado um artigo sobre os efeitos do LSD nos cromossomos. Era um artigo de Maimon Cohen, um pesquisador que estudava os efeitos de várias substâncias nos cromossomos - colhia os linfócitos, colocava em um tubo de ensaio e depois adicionava diferentes substâncias. Ele testou com LSD e constatou mudanças estruturais nos cromossomas, do mesmo modo que havia visto e descrito antes com cafeína, aspirina, antibióticos tricíclicos e outras substâncias.

Só que desta vez era o LSD. Justamente numa época em que ele rendia manchetes na imprensa. Os jornalistas conferiam os resumos dos artigos publicados a cada mês. Quando viram LSD, cromossomos, herança... Espremeram tudo e publicaram uma notícia com uma foto desfocada de um bebê com o título: Si tomas LSD solo una vez puedes tener un bebe deforme. As pessoas ficaram aterrorizadas. Acontece que você pode ir ao cabeleireiro e ter um bebê com deformidades. Não havia nenhuma conexão causal. Mas a histeria nacional e as pessoas que lutaram contra o uso da substância fizeram com que a informação tomasse um tamanho desproporcional. Por precaução, John Alkys não quis começar um novo projeto até que a situação fosse esclarecida.

Mas, por uma dessas sincronicidades incríveis, o único projeto com psicodélicos que continuou em andamento nos Estados Unidos estava em Baltimore, no Spring Grove State Hospital. Chegamos a um acordo: eu daria aulas na John Hopkins em um turno e participaria do grupo de pesquisa no outro. Era uma equipe muito interessante: Walter Pankhe, Bill Richards, Helen Bonnie e Sandy Anger, e depois ainda chegaram Richard Yensen e Franco DiLeo.

Sandy Anger viajava a diferentes lugares em que eram realizadas pesquisas com psicodélicos. Foi ela quem projetou um grande estudo sobre psicoterapia com LSD entre alcoólatras crônicos, realizado no Centro de Pesquisa Pasiquiátrica de Maryland. Eram pessoas que vinham de centros de reabilitação, um grupo realmente difícil de tratar. No nosso programa, também tivemos um grupo de viciados em drogas pesadas. Eles vinham de prisões e tinham a opção de entrar em nosso estudo duplo-cego (quando pesquisador e paciente não sabem qual é o tratamento aplicado) e cumprir o resto da sentença em liberdade condicional, desde que comparecessem todos os dias para testes de urina em nosso centro. Foi muito interessante. Ambos os estudos foram completamente bem-sucedidos.

Depois, tivemos um terceiro grupo de estudos com pacientes neuróticos, que também alcançou bons resultados. Por outro lado, também podíamos realizar sessões psicodélicas com profissionais da saúde mental: psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e conselheiros, inclusive alguns padres e pessoas do clero. Podiam ser feitas até três sessões com o propósito educacional de descobrir como funcionava a mente e o inconsciente. Este foi o estudo em que tivemos mais dificuldade para conseguir a autorização. Depois, a pesquisa mais interessante que realizamos, e que descrevi no livro El viaje definitivo, foi com pacientes terminais de câncer.

Me uni a estes pesquisadores durante vários anos, mas depois tornou-se cada vez mais difícil conseguir autorizações e financiamentos. Eu já tinha uma enorme quantidade de dados provenientes das pesquisas que realizei em Praga, com doses baixas de LSD e sessões repetidas, onde tive muitos insights sobre a cartografia da psique. Mesmo com doses baixas, as pessoas podiam chegar ao período do nascimento e/ou ter experiências transpessoais.

IP: E na terapia psicolítica, essas doses baixas eram de cerca de 100 mícrons?

SG: Bem, começamos com 100 mícrons. Nos estudos de laboratório também utilizamos entre 100 e 150 mícrons. Depois, na terapia psicolítica, usávamos entre 100 e 200 mícrons. Quando vim para os EUA, fazíamos a terapia psicodélica utilizando doses de 300 a 600 mícrons. Eram sessões muito internalizadas e com grande ênfase para o espaço, criávamos um contexto favorável com flores, frutas e etc.

Na terapia psicodélica, o foco era o que chamávamos de “dose única esmagadora”, buscando uma experiência de transformação e centrada especialmente no místico. Na verdade, as maiores mudanças ocorriam em pessoas que tiveram experiências de morte e renascimento ou transpessoais. Walter Pahnke estava em nosso grupo, um homem fascinante, com dois doutorados, famoso por seu Good Friday Experiment. Ele realizou a experiência em Harvard, quando ainda era um estudante e buscava concluir sua tese. Foi um experimento duplo-cego: ele deu psilocibina a um grupo de estudantes de Teologia e usou niacina como placebo. Baseado no estudo da literatura espiritual, desenvolveu um questionário sobre as características básicas do que ele chamou de "experiências de pico" ou experiências místicas. As pessoas que haviam tomado a psilocibina tiveram experiências fenomenologicamente quase iguais a dos místicos.

Então, este tornou-se um grande foco de nossa pesquisa em Spring Grove. Com o questionário de Pankhe, que envolvia categorias para definir as experiências de pico (experiência de unidade interna ou externa, numinosidade, transcendência do espaço e do tempo, inefabilidade, sensação de objetividade e realidade, e também mudanças positivas no comportamento e no modo de experimentar a vida), estudávamos as correlações entre as experiências relatadas e as alterações clínicas.

Concluímos aqui a primeira etapa da entrevista e do trabalho de Stanislav Grof. A segunda parte mostrará o trabalho realizado em Esalen, o desenvolvimento da Respiração Holotrópica e as características deste método.